terça-feira, 29 de junho de 2010

Reflexões Homiléticas para Julho de 2010

FESTA de SÃO PEDRO e SÃO PAULO (04.07.10)
Mt 16, 13-20
“E vocês, quem dizem que eu sou?”

Aqui temos a versão mateana da profissão de fé de Pedro, que Marcos (Mc 8, 27-35) coloca como pivô de todo o seu evangelho. Esse trecho levanta as duas perguntas fundamentais de todos os evangelhos: quem é Jesus? O que é ser discípulo d’Ele? São duas perguntas interligadas, pois a segunda resposta depende muito da primeira. A minha visão de Jesus determinará a maneira do meu seguimento d’Ele.

O diálogo começa com uma pergunta um tanto inócua: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?” É inócua, pois não compromete - o “diz que” não compromete ninguém, pois expressa a opinião dos outros. Por isso, chovem respostas da parte dos discípulos: “João Batista, Elias, Jeremias, ou um dos profetas!” Mas, Jesus não quer parar aqui - essa pergunta foi só uma introdução. Depois vem a facada: “E vocês, quem dizem que eu sou?”

Agora não chovem respostas, pois quem responde vai se comprometer - não será a opinião dos outros, mas a opinião pessoal! E esta opinião traz consequências práticas para a vida. Finalmente, Pedro se arrisca: “O Messias, o Filho de Deus vivo”.

Aqui Mateus acrescenta vv. 17-19, pois quer destacar o papel de Pedro (e, por conseguinte dos líderes da sua própria comunidade), na função de ligar e desligar da comunidade, que nos Evangelhos somente aqui e em Cap. 18 é chamada de “Igreja”. “As chaves do Reino” não se referem ao poder de perdoar pecados, mas de integrar e desligar pessoas da comunidade dos discípulos.

O fundamento, o alicerce, dessa comunidade é o conteúdo da profissão de Pedro: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. Mas, continuam no ar as duas perguntas que são o cerne do Evangelho: “Quem é Jesus?”, e “o que significa segui-Lo?” Pois, os termos que Pedro usa são ambíguos, porque cada um os interpreta conforme a sua cabeça. Por isso, Jesus toma uma atitude, aparentemente estranha: “Ele ordenou os discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Messias!”

Que coisa esquisita! Jesus proíbe que se fale a verdade sobre Ele! Como é que Ele espera angariar discípulos deste jeito? O assunto merece mais atenção.

Realmente, Pedro acertou em termos de teologia, de “ortodoxia”, conforme diríamos hoje. Ele usou o termo certo para descrever Jesus. Mas Jesus quer esclarecer o que significa ser “o Messias de Deus”. Pois, cada um pode entender esse termo conforme os seus desejos. Jesus quer deixar bem claro que ser “messias” para Ele é ser o “Servo de Javé”. É vivenciar o projeto do Pai, que necessariamente vai levá-Lo a um choque com as autoridades políticas, religiosas, e econômicas, enfim, com a classe dominante do seu tempo, e não o Messias nacionalista e triunfalista das expectativas de então. Pedro teve que aprender essa exigência do discipulado, de uma maneira lenta e dolorosa, passando até pela negação de Jesus na noite da sua prisão. Aprendeu tão bem que chegou a dar a sua vida como mártir, também morrendo, conforme a tradição, numa cruz, no Circo de Nero, onde atualmente se localiza a Basílica que traz o seu nome. Paulo, que durante os seus primeiros anos da vida adulta, perseguia os discípulos, também teve a graça da conversão, chegando a afirmar que não queria saber nada a não ser Jesus Cristo e Jesus Cristo Crucificado! Ele também pagou com a sua vida essa decisão pelo discipulado.

No nosso tempo, quando é moda apresentar um Jesus “light”, sem exigências, sem paixão, sem Cruz, sem compromisso com a transformação social, o texto nos desafia a clarificar em que Jesus acreditamos!O Jesus “ôba! ôba!”, tão propagado por setores da mídia; ou, o Jesus bíblico, o Servo de Javé, que veio para dar a vida em favor de todos?

DÉCIMO QUINTO DOMINGO COMUM (11.07.10)
Lucas 10, 25-37

“Vá, e faça a mesma coisa”

A parábola do “Bom Samaritano” talvez seja, junto com a do “Filho Pródigo”, a mais conhecida de todas as parábolas de Jesus. Por isso mesmo, corre o risco de ser banalizada, de não ser levada muito a sério, de ser relegada quase ao nível de folclore religioso. Merece uma atenção mais minuciosa.

A parábola situa-se logo após Jesus ter louvado o Pai por ter “escondido essas coisas aos sábios e inteligentes e revelado aos pequeninos” (Lc 10 , 21). Realmente, o primeiro a tentar atrapalhar Jesus é um “sábio e inteligente” - um especialista em leis. Lucas salienta que ele fez a pergunta “o que devo fazer para receber em herança a vida eterna” (v. 25), não porque ele se interessava pela verdade, mas “para tentar Jesus”. Devolvendo a pergunta a ele, Jesus deixa claro que o legista já sabia a resposta: “Ame o Senhor, seu Deus, como todo o seu coração, com toda a sua alma, como toda a sua força e com toda a sua mente; e ao seu próximo como a si mesmo.” Jesus simplesmente diz: “Você respondeu certo. Faça isso e viverá” (v. 28)

Mas, com a petulância típica do pseudo-intelectual, ele insiste, “para se justificar”, com uma segunda pergunta: “E quem é o meu próximo?” (v. 29). Mas, Jesus não cai na cilada de fazer uma discussão teórica e estéril sobre quem seja o próximo - ele logo traz o debate para o nível prático da vivência. Ele conta a parábola do “Bom Samaritano”. Vejamos:

Depois do assalto, passou pela vítima um sacerdote que “viu o homem e passou adiante pelo outro lado” (v. 31). A mesma coisa aconteceu com um levita. Por que será que esses homens - ligados ao culto judaico - agiram assim? A resposta está nas leis de pureza daquela época. O contato com um defunto, ou com sangue, deixava a pessoa ritualmente impura, isso é, inapta para participar do culto. Como o homem estava coberto de sangue, e talvez morto, estes dois não se arriscavam a tocar nele, pois para eles o culto religioso era mais importante do que a misericórdia para com uma pessoa sofrida.

Entra em cena um samaritano. A religião dele era considerada como cheia de deformações e ignorância pelo judaísmo oficial, pois desde a invasão da Assíria em 721 a.C. a sua prática religiosa tinha sido contaminada por religiões pagãs (2Rs 17, 24-31). Mas, quando ele vê o sofrimento alheio, ele não pensa em discussões teológicas sobre pureza; mas, parte para uma ajuda prática, com misericórdia.

Terminando a história, Jesus devolve a pergunta ao especialista em leis - mas, faz uma mudança fundamental! Não faz a pergunta teórica “quem é o meu próximo”, mas uma pergunta prática “quem se fez próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” A primeira pergunta só levaria a uma discussão vazia; a de Jesus, leva a uma mudança de prática vivencial.

Forçado a reconhecer que quem se fez próximo do sofredor era o samaritano, o legista ouviu da boca de Jesus a conclusão: “Vá e faça a mesma coisa” (v. 37).

Com esta parábola, Jesus quer ensinar que nada, nem o culto, tem prioridade sobre a ajuda a uma pessoa necessitada. A religião de Jesus não é teoria, é prática de misericórdia, pois Deus é misericordioso. O legista já sabia a orientação da Escritura, mas tentava escapar das suas consequências, criando discussões inúteis. Nós também sabemos o que diz a Bíblia, - não tentemos esvaziá-la com debates estéreis sobre quem é “o pobre”, “o aflito”, “o próximo”, “o bom”. Façamos o que Jesus ensina nesta parábola “e viveremos”.

DÉCIMO SEXTO DOMINGO COMUM (18.07.10)

Lucas 10, 38-42

“Uma só coisa é necessária”

Mais uma vez, o Evangelho de Lucas destaca o fato que Jesus e os seus discípulos caminhavam. É caminhando que se faz caminho, e é no caminho que se aprende o que é ser discípulo de Jesus. Todos nós estamos no caminho, como Jesus e os outros, só que a nossa caminhada não se mede em quilômetros, mas em anos!

O Evangelho de hoje frisa muito o lado afetivo de Jesus e dos seus discípulos e discípulas. Jesus se dirige à casa de uma família em Betânia, perto de Jerusalém. Era o lugar predileto onde Jesus procurava - e recebia - aconchego humano, carinho, afeto, amizade, acolhimento; onde podia refazer as suas forças nas suas caminhadas evangelizadoras. Do Evangelho do Discípulo Amado aprendemos que: “Jesus amava Marta, a irmã dela e Lázaro” (Jo 11, 5). Este tipo de relacionamento humano é necessário para que formemos verdadeiras comunidades cristãs - e quantas vezes dispensamos este elemento fundamental.

É gritante a diferença de gênio das duas irmãs! Marta, provavelmente a mais velha, preocupada com os seus afazeres - afinal tinha chegado treze hóspedes para uma refeição, e tinham que ser bem tratados; Maria, calma, senta-se aos pés do Senhor, para escutar a Palavra. De repente, ressoa o desabafo de Marta: “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha com todo o serviço? Manda que ela venha ajudar-me!” (v. 40). Instintivamente, a nossa simpatia fica com a Marta. Qual é a mãe da família, a dona de casa ou o anfitrião de visita que não sentiria o que Marta sentia? Por isso mesmo, chama a atenção a resposta do Senhor: “Marta, Marta! Você se preocupa e anda agitada com muitas coisas; porém uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada.”(v. 41s).

Uma coisa é óbvia - Jesus não está defendendo a preguiça, a omissão, a exploração do trabalho dos outros! Num mundo agitado como é o nosso, que não nos deixa tempo para cultivar o relacionamento humano, a amizade, a oração, o nosso próprio ser, esta resposta nos faz lembrar a importância de viver de uma maneira que prioriza as coisas. É óbvio que nós temos que nos preocupar com os afazeres, os trabalhos, - mas, na verdade, quantas vezes nós enchemos os nossos dias com ativismo, atividades fúteis, agitação, - e assim não conseguimos escutar nem nós mesmos, nem os irmãos, nem o próprio Deus!

Jesus aqui questiona a agitação e o ativismo - que não se mede pelo número de atividades. O ativismo é uma fuga, uma fuga de um encontro com os anseios mais profundos do nosso ser, dos apelos de Deus, refugiando-nos em um número sem fim de atividades sem objetivos claros, sem organização, sem rumo. A atitude de Maria é a de uma discípula, que aprende viver de maneira nova, ouvindo e ruminando a Palavra de Deus, uma palavra que pode levar à muita atividade, mas nunca ao ativismo.

Jesus de forma alguma quer menosprezar a Marta. Aliás, diversas vezes os evangelhos põem Marta em mais relevo do que Maria. O próprio Lucas diz que foi Marta que recebeu Jesus na sua casa (v. 38). Em João, é Marta que faz a profissão de fé em Jesus, que nos Sinóticos é feita por Pedro: “Sim, Senhor. Eu acredito que tu és o Messias, o Filho de Deus que devia vir a este mundo” ( Jo 11, 27).

Na realidade, todos nós temos que ser “Marta e Maria”. Temos necessidade de nos dedicarmos aos nossos afazeres, mas também é preciso achar tempo para ficarmos aos pés do Senhor. O desafio é de conseguir o equilíbrio entre os dois aspectos de vida, entre “lançar as redes” e “consertar as redes” (Mc 1, 16-20), entre “atividade” e “oração”, entre “missão” e “interiorização”. Pois, os dois lados são tão intimamente ligados que o desequilíbrio, do lado que for, trará consequências negativas para a nossa vida de discípulos e discípulas.

DÉCIMO SÉTIMO DOMINGO COMUM (25.07.10)

Lucas 11,1-13

“Ensina-nos a rezar!”

O nosso texto de hoje nos traz o ensinamento da Oração do Senhor, na versão Lucana. O Novo Testamento nos traz duas versões desta oração - por sinal a única oração que o Senhor nos ensinou: Lucas 11, 2-4 e Mateus 6, 9-13. Normalmente, os cristãos rezam na forma mateana, com sete petições e sem doxologia (oração de louvor). A versão lucana só tem cinco petições. A forma usada na Missa acrescenta a doxologia “porque Vosso é o Reino, o Poder e a Glória para sempre”, baseada no texto trazido pela Didaché - um documento cristão do início do segundo século. Alguns estudiosos explicam as duas formas pelo fato que Lucas e Mateus estavam se dirigindo a comunidades diferentes, com tradições diferentes. Mateus se dirigia a pessoas que tinham o costume de rezar, mas que estavam correndo o risco de orar duma maneira muita formal e rotineira (judeu-cristãos), enquanto Lucas estava escrevendo para pessoas recém-convertidas (gentios-cristãos) e que precisavam aprender, talvez pela primeira vez, a rezar continuamente.

Embora não haja unanimidade entre exegetas sobre qual é a forma mais original, parece que o consenso tende em favor da versão Lucana. A versão mateana apresenta a forma mais litúrgica do seu uso (p. ex.“Pai Nosso” em lugar do simples “Pai”); mas, na verdade não há diferença essencial entre as duas versões. Baseando-nos no trabalho de um exegeta alemão, Joaquim Jeremias, propomos a seguinte versão como a mais aproximada às palavras aramaicas de Jesus (devemos sempre lembrar que Jesus falava em aramaico, os evangelhos foram escritos em grego, e nós os lemos em português!):

“Querido Pai, santificado seja o Teu nome; venha o Teu Reino; o pão nosso de amanhã nos dá hoje; perdoa-nos as nossas dívidas, como queremos perdoar os nossos devedores, e não nos deixes sucumbir à tentação”.

Seguindo este autor, tratamos a oração como uma “oração escatalógica”, ou seja a oração da comunidade cristã que experimenta o Reino como uma realidade já presente, mas que espera e pede a sua consumação final.

Uma chave para a compreensão lucana da Oração do Senhor, nós a encontramos no primeiro versículo do texto: “Um dia, Jesus estava rezando num certo lugar. Quando terminou, um dos discípulos pediu: “Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou os discípulos dele” (Lc 11, 1). Essa frase nos faz lembrar que muitos grupos religiosos do tempo de Jesus tinham uma oração que identificasse os seus discípulos, como por exemplo, os Essênios, os Fariseus e os Batistas. Então o discípulo de Jesus pede uma oração que pudesse identificar o seu programa de vida, como discípulos de Jesus. Então podemos ver a Oração do Senhor como mais do que uma oração - como um “manifesto” da nossa proposta de vivência da nossa fé. Vejamos mais de perto o texto:

1. “Querido Pai” (ABBÁ):

É possível que muita gente tenha dificuldade em rezar o “Pai Nosso” por causa da sua experiência com o seu próprio pai. Se nós tivemos um pai carinhoso, com quem desde criança nós nos sentíssemos bem, então teremos facilidade de rezar a Deus como “Pai”. Mas, se o nosso pai era pessoa dura, ameaçadora, sem expressão de carinho, então podemos ter mais dificuldade em poder nos relacionar com Deus como “Pai Nosso”. Outras pessoas - especialmente feministas - talvez achem que o título “Pai” para Deus traz conotações demasiadamente masculinizantes, quando não machistas. Por isso, é importante aprofundar o sentido bíblico do termo, e o que significava na boca de Jesus.

Quando o Antigo Testamento descreve Deus como Pai, implica muito de que a nossa cultura atribui à mãe. O Antigo Testamento se refere a Deus como Pai quinze vezes e enfatiza a ternura, a misericórdia, o carinho e o amor de Deus para o seu povo. Isso fica especialmente claro nos Profetas. Vejamos alguns textos: “Serei um pai para Israel, e Efraim será o meu primogênito” (Jr 31, 9); “Será que Efraim não é o meu filho predileto? Será que não é um filho querido? Quanto mais o repreendo, mais me lembro dele. Por isso minhas entranhas se comovem, e eu cedo à compaixão - oráculo de Javé” (Jr 31, 20); “Eu tinha pensado contar você entre os meus filhos, dar-lhe uma terra invejável... esperando que você me chamasse de “Meu Pai”, e não se afastasse de mim (Jr 3, 19); “Quando Israel era menino, eu o amei, do Egito chamei o meu filho... fui eu que ensinei Efraim a andar, segurando-o pela mão.... Eu os atraí com laços de bondade, com cordas de amor. Fazia com eles como quem levanta até seu rosto uma criança; para dar-lhes de comer, eu me abaixava até eles (Os 11, 1ss).

Nesses textos podemos sentir muitas das características que a nossa cultura ocidental atribui à mãe – portanto, o termo “Pai” no Antigo Testamento não traz qualquer conotação machista.

Embora o Antigo Testamento fale de Deus como “Pai” quinze vezes, jamais alguém invoca Deus como “meu Pai”, ou “nosso Pai”. O respeito do judeu diante da transcendência de Deus não permitia. Mas, nos Evangelhos nós achamos o termo “Pai” para Deus na boca de Jesus 170 vezes. Isso era coisa tão inédita que podemos ter certeza que se trata de uma palavra autêntica de Jesus e não somente proveniente da Igreja primitiva. Marcos a usa 4 vezes, Lucas 15 vezes, Mateus 42 vezes e João 109 vezes! Na comunidade do Discípulo Amado, pelo fim do primeiro século, “Pai” é o termo para Deus.

A expressão que Jesus mesmo usava era “Abbá”, uma palavra aramaica sem sinônimo em português. Fazia parte da linguagem da intimidade do lar, um termo carinhoso usado tanto por crianças como por adultos, para o seu pai. Então, ultrapassa o sentido da nossa palavra “papai”. Devemos dar muito peso a este ensinamento de Jesus, pois embora não existe na literatura rabínica um exemplo sequer do uso do termo “Abbá” para Deus, Jesus sempre se dirigia a Deus deste jeito, exceto em Mc 15, 34 (quando na cruz, citando um salmo, ele chama deus de “Eloí”, meu Deus). Jesus então conversava com Deus com a segurança, intimidade e carinho com quem se conversa na ternura do seio familiar. E mais, ele autorizou os seus discípulos a usar o mesmo termo. Isso indica o novo relacionamento com Deus, que Jesus nos trouxe. É algo além do normal, poder reivindicar tal relacionamento com Deus. São Paulo mantinha o termo aramaico, mesmo escrevendo em grego em Gálatas 4, 6 e Romanos 8, 15, quando ele diz: “A prova de que vocês são filhos é o fato de que Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho que clama: Abbá Pai!” (Gl 4, 6); “...receberam um Espírito de filhos adotivos, por meio do qual clamamos: Abbá, Pai!” (Rm 8,15)

O “endereço” da oração determina não somente o nosso relacionamento com Deus, mas, com os nossos irmãos e irmãs. Pois, se Deus é o “Abbá” de todos nós, então somos todos iguais; e rezar esta oração exige que nós não nos compactuemos com qualquer coisa que nos discrimine - racismo, machismo, clericalismo, exploração etc.

Todas as petições seguintes da oração dependem desse endereço. Pois, não estamos nos dirigindo a um Espírito perfeitíssimo, criador do céu e da terra, onipresente, onipotente e onisciente! Estamos nos dirigindo ao nosso “Querido Pai”; e é este novo relacionamento, um dom incrível do próprio Deus, que faz possíveis as petições. Por isso, na liturgia, a Igreja pede que se faça uma introdução à oração, como “Orientados pela Palavra de Jesus, ousamos rezar”, para que nós tomemos consciência da enormidade do dom de filiação que recebemos por Jesus.

2. “Santificado seja o Teu nome”

Na forma atual, esta petição pode expressar tanto um louvor, (“Santificado seja o teu nome”) como petição (“Que o Teu Nome se torne santificado”). No contexto, devemos entendê-la como pedido. Podemos entender melhor a frase se voltamos de novo para um profeta do Antigo Testamento, Ezequiel: “Vou santificar o meu nome grandioso, que foi profanado entre as nações, porque vocês o profanaram entre elas. Então, as nações ficarão sabendo que eu sou Javé, quando eu mostrar a minha santidade em vocês diante deles” (Ez 36, 23).

Então, com este pedido rezamos que o mundo chegue a conhecer o nome (isto é, a realidade íntima) de Deus (que Ele é o nosso “querido pai”) através da nossa vivência. Se torna uma oração missionária, com três elementos:

- primeiro, que nós cheguemos a conhecer cada vez mais quem é Deus;

- segundo, que o mundo chegue a este conhecimento através do nosso testemunho;

- terceiro, que a plenitude da revelação da realidade de Deus venha logo; este é o aspecto escatalógico.

3. “Venha o Teu Reino”

O tema central da pregação de Jesus era a iminência do Reino de Deus. Se o “nome” de Deus se refere à sua natureza íntima, o “Reino” se refere à sua atividade. Pedimos aqui a consumação final do Reino. É a oração da comunidade que reconhece a presença do Reino, mas, sente que ainda não é estabelecido definitivamente entre nós. Temos outros trechos do Novo Testamento que expressam esse desejo com a palavra aramaica “Maranathá”, (Vem, Senhor Jesus!), por exemplo 1Cor 16, 22 e Ap 22, 20.

A versão mateana que nós costumamos rezar, acrescenta “Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu”. Isso é outra maneira de expressar a mesma idéia, pois quando a vontade de Deus é feita na terra como já se faz no céu, então o Reino estará plenamente realizado entre nós.

4. “O pão nosso de amanhã nos dá hoje”

Os primeiros dois pedidos almejam a chegada do Reino na sua plenitude, mas as duas petições seguintes põem a ênfase sobe o “agora”, o “hoje”!

A primeira dificuldade que enfrentamos é com a tradução, pois aqui se usa uma palavra grega “epiousios” que não é usada em outro lugar no Novo Testamento. Há quatro sentidos básicos possíveis para este termo:

- necessário para a nossa existência;

- para hoje;

- para o dia que virá;

- para o futuro.

As várias traduções usadas nas nossas bíblias (e seria bom verificar) refletem a dificuldade em ter certeza sobre o que significa o termo no contexto desta oração. Muitos exegetas concluem, com São Jerônimo, que a palavra quer dizer “dá nos hoje o nosso pão de amanhã”.

Aqui, “amanhã” significaria o “grande amanhã” da parusia, da consumação final do Reino de Deus. Assim estamos pedindo que nós possamos experimentar hoje o que pertence à plenitude do Reino.

E isso tem implicações muito concretas para a nossa vivência. Pois jamais será possível experimentar a plenitude do Reino enquanto falta o pão material na mesa dos nossos irmãos e irmãs. Quem faz este pedido se compromete com a luta por uma sociedade mais justa, mais fraterna, onde todos possam ter uma vida digna.

Quando Jesus e os seus discípulos faziam a refeição, era muito mais do que simplesmente tirar a fome. Significava o banquete messiânico, desejado pelos profetas, onde todos teriam vida plena. Quem reza esta petição, se compromete com a concretização de uma sociedade onde “todos tenham a vida e a vida em abundância” (Jo 10, 10), coisa impossível sem o pão material nas mesas.

Não é possível participar do banquete eucarístico, sem este compromisso concreto com a construção de um mundo sem empobrecidos, onde todos terão “o pão nosso de cada dia”.

5. “E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós queremos perdoar os nossos devedores”.

Um dos grandes dons da era escatalógica é o perdão. Já vimos em outros trechos como Jesus manifestava este dom gratuito do Pai. Aqui pedimos que nós possamos experimentar este grande dom, aqui e agora. Mas, o trecho levanta a questão da relação entre o perdão de Deus e o nosso perdão.

A maneira que nós rezamos o “Pai Nosso” - “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”- pode dar a impressão que estamos pedindo que Deus nos perdoe na medida em que perdoamos os outros! Se Deus vai nos perdoar conforme os critérios humanos, estamos em maus lençóis! Aqui é necessário que olhemos melhor o que significa “assim como”.

Quase todos os estudiosos estão de acordo que essa frase não deve ser entendida como uma comparação entre o perdão de Deus e o nosso. Diversas parábolas sugerem que o perdão de Deus precede o perdão humano (Mt 18, 23-25; Lc 7, 41-47). O nosso perdão é consequência e resposta ao perdão de Deus. Sendo perdoados, não temos desculpa para não perdoar! Mas, qual é então o papel do perdão humano? (Mt 6, 14s). É que o perdão de Deus só se torna real para mim quando eu o assumo na minha vida ao ponto que procuro perdoar quem me ofendeu. O nosso perdão mútuo então é a prova de até onde temos aceito o perdão de Deus. Devemos então lembrar três pontos:

- O perdão de Deus sempre precede o perdão humano;

- O perdão humano é reação ao perdão divino;

- O perdão divino só se torna eficaz para nós quando nós temos vontade de perdoar o outro.

Joaquim Jeremias explica a frase assim: “Nós estamos prontos a repassar a outros o perdão que nós recebemos. Dá-nos, querido Pai, o dom da era da salvação, o teu perdão, para que, na força do perdão recebido, possamos perdoar os que têm nos ofendido”. (J. Jeremias, A Oração do Senhor).

E o grande exemplo desta realidade continua sendo a mulher “pecadora” de Lc 7, 36-50), cujo grande amor foi consequência do grande perdão recebido de Deus.

6. “E não nos deixes sucumbir à tentação”

Este é o único pedido formulado em termos negativos. Aqui não somente pedimos para não cair nas pequenas ou grandes tentações que nós enfrentamos no dia-a-dia, mas que não caiamos na Grande Tentação, de não acreditar na realidade da presença do Reino, de perder a fé na ação transformadora de Deus, de não acreditar mais na concretização da vontade de Deus. E este “sucumbir” não vem normalmente “de vez” - é um processo lento, que pode acontecer sem que nós nos demos conta. É o perder do elã, da vibração com a causa do Reino, que reduz a religião a um mero “cumprir tabela”, sem alegria, sem esperança, - enfim uma frustração. Este pedido ecoa uma mensagem e advertência clara dos evangelhos - a necessidade de vigilância! Estamos na luta escatalógica entre o bem e o mal, onde até Jesus foi tentado. Aqui reconhecemos a nossa fraqueza, a nossa tendência para o desânimo, e pedimos a força de Deus para que não sucumbamos à Grande Tentação.

Assim a Oração do Senhor resume o projeto de vida dos seus seguidores e discípulos. É uma oração que traz consequências bem concretas para o nosso relacionamento com os irmãos e com a sociedade. É uma oração que desinstala e desacomoda. Pois, nós estamos nos comprometendo com a construção diária do Reino, através do seguimento de Jesus.

A segunda parte do trecho de hoje insiste na necessidade de perseverança na oração. Faz contraste (e não comparação!) entre Deus e o amigo humano. Pois se o “amigo” só atende o pedido para não ser amolado, Deus é bem diferente. Ele dará o mais importante - o Espírito Santo, com todos os seus dons, àqueles que o pedirem! Peçamos as coisas pequenas - mas importantes - necessárias para a nossa vivência diária, mas saibamos também pedir os grandes dons do Reino, o perdão, o pão da vida, a misericórdia sem limites, que Deus jamais negará!

Pe. Tomaz Hughes, SVD

E-mail: thughes@netpar.com.br

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